Leituras sobre saúde mental
Comer demais de vez em quando, numa festa ou num dia difícil, faz parte da vida. No transtorno de compulsão alimentar, os episódios se repetem, vêm com a sensação de não conseguir parar e deixam culpa e vergonha depois. É um transtorno mental reconhecido, e tem tratamento.
Os transtornos alimentares mudam a relação da pessoa com a comida e, muitas vezes, com o próprio corpo. Os mais conhecidos são a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar. Segundo o Tratado de Psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria, a compulsão alimentar é o mais frequente deles na população geral.*
Em um estudo da Organização Mundial da Saúde citado no livro, 4,7% dos adultos da cidade de São Paulo tiveram o transtorno em algum momento da vida. Os sintomas costumam começar no fim da adolescência ou no início da vida adulta, e o quadro é mais comum em mulheres.
O episódio tem dois elementos centrais: comer, em um período curto, uma quantidade de comida bem maior do que a maioria das pessoas comeria, e sentir que não consegue parar ou controlar o que está comendo.* Além disso, o DSM-5 pede pelo menos três destes sinais:
Para o diagnóstico, os episódios acontecem pelo menos uma vez por semana, durante três meses, e trazem sofrimento importante.
O capítulo descreve como esses episódios costumam ser vividos. A perda de controle é tão perturbadora que alguns pacientes dizem que é “como se não fosse eu mesmo”. Muitos comem escondidos, misturam doce e salgado e se sentem péssimos depois.
Na bulimia nervosa também existem episódios de compulsão, mas depois deles a pessoa tenta compensar, por exemplo provocando vômito ou usando laxantes. No transtorno de compulsão alimentar, esses comportamentos compensatórios não acontecem.*
O peso não faz parte dos critérios de diagnóstico, mas o transtorno está muito associado ao sobrepeso e à obesidade. Segundo o livro, quem convive com a compulsão costuma ter um histórico de variações de peso e de várias tentativas de emagrecer que não deram certo.*
Isso acontece porque a compulsão tem gatilhos que a dieta sozinha não alcança. O livro cita emoções negativas, estresse nos relacionamentos, sentimentos negativos sobre o peso e o corpo e a própria restrição alimentar. Por isso, o livro orienta que o papel da restrição no desencadeamento dos episódios seja trabalhado no tratamento.
A compulsão alimentar também aparece com frequência junto de depressão, ansiedade e TDAH. Por isso, a avaliação precisa olhar para a pessoa como um todo, e não só para o que ela come.
Segundo o capítulo, o tratamento tem três objetivos: reduzir os episódios de compulsão, cuidar das alterações clínicas e metabólicas, como o ganho de peso e o diabetes, e tratar os sintomas associados, como ansiedade, depressão e impulsividade.*
Para isso, entram a psicoterapia, a orientação nutricional e, quando indicada, a medicação, que hoje conta com opção aprovada pela Anvisa para os casos moderados a graves. O livro é claro sobre a necessidade de várias frentes trabalhando juntas:
“A abordagem multiprofissional é imprescindível para o sucesso terapêutico.”*
Se a comida virou um lugar de perda de controle e de culpa, isso não é falta de força de vontade. É um quadro que tem nome, critérios claros e tratamento. O primeiro passo é uma avaliação que considere os episódios, o seu humor, a sua história e a sua saúde física.
* APPOLINARIO, Jose Carlos. Transtornos alimentares. In: NARDI, Antonio Egidio; SILVA, Antônio Geraldo da; QUEVEDO, João (org.). Tratado de psiquiatria da Associação Brasileira de Psiquiatria. Porto Alegre: Artmed, 2022. cap. 26.
Na consulta, a Dra. Paula avalia os episódios de compulsão e os quadros que podem estar junto, como ansiedade e depressão, e monta um plano de tratamento com você. Se você faz terapia e autorizar, ela conversa com a sua psicóloga.